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O Porto Santo no contexto da expansão portuguesa

O espaço ultramarino em relação à Europa e o comércio marítimo a grande distância, garantindo as ligações regulares entre o Norte do Continente europeu e o Sul alargando-se ao “Mediterrâneo Atlântico”, que inclui o grande golfo entre o Algarve e o Magrebe, assim como os arquipélagos da Madeira e Canárias, são expressão da modernidade que se vai consolidando desde o século XIII, encontrando no desenvolvimento urbano e nas exigências mercantis e produtivas das cidades a expressão mais evidente.

O Porto Santo vai dar uma importante contribuição à manufactura têxtil italiana, fornecendo uma matéria-prima corante muito apetecida: “o sangue de drago” ou seiva de dragoeiro, também com aplicações no campo da farmacopeia. Assim não é de admirar que a ilha do Porto Santo já esteja assinalada com o mesmo nome em italiano e com rigor cartográfico em mapas ítalo-aragoneses desde o século XIV.
Podemos considerar o primeiro ciclo económico do Porto Santo como o “ciclo do dragoeiro”, referência assinalável nos primórdios da expansão ultramarina europeia. De facto, a expansão europeia é o início dum mundo em crescente “globalização”, embora com protagonismos diversificados: cidades italianas e flamengas, Castela, Portugal, Inglaterra, França, Holanda.

No século XVI, a exaustão da “floresta” de dragoeiros do Porto Santo é já quase completa. A integração da ilha no processo de expansão europeia, com crescente predomínio de Castela e Portugal, vai entrando num outro ”ciclo económico”: o do aproveitamento de terras para o cultivo de cereais, um produto essencial ao consumo alimentar dos europeus. O Porto Santo entra com destaque nesse ciclo: o cultivo da cevada vai permitir um fácil abastecimento das praças portuguesas do Norte de África, cuja “defesa ofensiva” assentava na cavalaria. A excelente qualidade da cevada produzida fez com que servisse mesmo de base para a alimentação das exigentes cudelarias reais nos séculos XV e XVI, afadigando-se os funcionários do reposte régio em garantir o aproveitamento, estando atentos à sua produção anual.

Para além da sua importância económica, o Porto Santo também se destaca como uma primeira “linha” de protecção do Arquipélago da Madeira, assinalando com prioridade a presença de corsários, e igualmente como ponto de referência à navegação atlântica que demandava a costa africana, a Índia, pela rota do Cabo, ou o Brasil. A silhueta da pequena ilha, mesmo quando não era utilizada como porto de abrigo ou aguada, dava um conforto à estabilidade psicológica dos mareantes, ainda presos aos reflexos duma navegação mediterrânica primordial ou de cabotagem. Sentir um eventual apoio terrestre, mesmo duma pequena ilha, em pleno vasto oceano, era bem-vindo.

O Porto Santo foi também um espaço cobiçado pela vanguarda do expansionismo marítimo turco para Oeste, a partir das suas bases na Tunísia e na Argélia. A empenhada opção da Espanha pela defesa do Mediterrâneo e as fortalezas portuguesas no Magrebe atlântico nunca tornaram a ameaça turca um perigo muito sério. No entanto, o Porto Santo foi um campo muito activo desse confronto, sucedendo até começos do século XIX muitas escaramuças com corsários turcos e a captura de moradores porto-santenses, vendidos nos mercados de escravos de Tunis ou Argel. Desse período vem a expansão popular: “vai para a Regela” sendo “Regela” adulteração fonética de Argélia.

João José Abreu de Sousa



 
 
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