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A Madeira nos séculos XV e XVI

Iniciadas as viagens regulares dos portugueses ao arquipélago madeirense, em fins da segunda década do séc. XV, logo se pensou no seu povoamento, assim como no seu aproveitamento económico e estratégico.
De começo, uma produção volumosa de cereais, particularmente de trigo, permitiu não apenas uma fácil subsistência para os colonizadores, como também possibilitou uma importante exportação até cerca de 1470, apesar das condições difíceis de navegação atlântica, criando uma regular circulação de riquezas, frequência de transportes marítimos e actividade comercial que vão determinar um desenvolvimento social com continuidade.

Desde meados do século XV, outro produto vai criando relevo na economia madeirense: o açúcar, que manterá posição determinante nas exportações até às últimas décadas do século XVI, com várias oscilações de conjuntura, embora o vinho fosse também exportado, além dos produtos tintureiros, exigidos pelas manufacturas têxteis flamengas ou italianas, bem como as madeiras, muito apreciadas para a construção naval na Ribeira das Naus, em Lisboa.

A inicial prosperidade económica da Ilha da Madeira, com a produção de açúcar aumentando até começos do século XVI, irá acelerar uma rápida colonização do sul da Ilha, com particular relevo para o Funchal.

Mercadores estrangeiros, sobretudo da Flandres e Itália, vão fixar-se na Madeira e assegurar a exportação de açúcar para vários destinos como Arrochela, Ruão, Génova, Veneza, Flandres, Inglaterra, etc.

A grande valorização do açúcar nos mercados internacionais irá incrementar a rapidez dos desbravamentos na busca de terras boas para canaviais.

As terras por desbravar começam, cerca de 1425, por serem dadas a elementos da nobreza de segunda categoria: escudeiros e cavaleiros, a “gente de qualidade possível” referida num documento de D. João I, mais ou menos empenhada na actividade mercantil, na época ainda não completamente desligada do corso, pelo que se podem designar por cavaleiros--mercadores ou mercadores-cavaleiros, imperativamente associados à navegação porque viviam nas ilhas, sobretudo na maior delas, e as comunicações com os continentes próximos, Europa e África ou outros arquipélagos atlânticos eram, necessariamente, marítimas.

No vértice da estrutura social estavam os herdadores, os proprietários pertencentes às camadas de base da nobreza. No entanto, estes escudeiros e cavaleiros não desdenhavam o exercício das actividades comerciais, vendendo a produção excedentária de cereais, gado, vinho ou açúcar. Os estrangeiros recém-vindos, atraídos pelo negócio do açúcar, vão-se-
-lhes associar e integrar através de casamentos, sendo exemplo típico o de João Esmeraldo, casando a primeira vez com uma neta de João Gonçalves Zarco e a segunda com uma filha de João Fernandes do Arco, proprietário rural, comerciante e navegador.

A atracção pelas ilhas atlânticas, onde os portugueses começam a ir com regularidade e cujo conhecimento se difundia, exprimia também o desejo para muitos da realização de negócios rápidos e lucrativos, um enriquecimento fácil, uma imediata melhoria de vida com base numa agricultura de alto rendimento que compensava largamente o problema da distância e do transporte.

A expansão da produção do açúcar, cujo início significativo se situa em meados do século XV, cedo atingiu os limites das suas capacidades por volta de 1500, garantindo um próspero comércio externo, naturalmente marítimo e a grande distância. Beneficiando dessa prosperidade, o Funchal, que dispunha da melhor baía da ilha da Madeira, vai desenvolver-se como centro urbano principal, com uma notável população burguesa constituída por portugueses e estrangeiros, principalmente mercadores, mas que também não desdenhavam intervir no cultivo da cana-de-açúcar e na produção do açúcar.

O comércio dos produtos da Madeira, quando se tratava de exportação, era necessariamente marítimo e a grande distância, no essencial, tanto mais que a Flandres se assume, desde cedo, como o grande centro redistribuidor do açúcar madeirense, tanto o dos senhores da Madeira (até 1497), como depois o do rei, proveniente do imposto sobre a produção, como também o açúcar de particulares. Ora, o comércio marítimo a grande distância exigia, à partida, um sistema de transporte evoluído em que a rapidez e a capacidade de carga dos navios, competência dos mareantes, garantia financeira dos valores, etc., eram factores a ter em conta, além da capacidade de aplicar capitais de certa monta, conhecimento da situação dos mercadores da Europa e África, particularmente, neste caso, as praças portuguesas. Problemas semelhantes se colocavam quando se tratava do comércio de importação, sendo a Europa e a África, com convergência de rotas marítimas no estreito de Gibraltar, os grandes mercados do comércio externo insular nos séculos XV e XVI.

A vida económica e social insular integra-se já num contexto de transição duma Europa Ocidental ainda com traços de feudalismo e Estados pouco elaborados, para uma modernidade em que se destaca a expansão urbana, o desenvolvimento das comunicações e uma intensa actividade comercial, com a consequente procura de novos ou raros produtos em que se salienta o açúcar, mesmo que com isso implicasse a navegação a grande distância, indispensável, no caso da Madeira.

A presença de mercadores estrangeiros enquadrando o arquipélago no grande comércio internacional mas inserindo-se na realidade económica e social local é a melhor expressão da dinâmica da sociedade que se ia desenvolvendo no novo espaço geográfico humanizado.

João José Abreu de Sousa

 
 
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